Nenhum homem vive solto no tempo e no espaço.
Muito menos o gênio paira acima das
coisas terrenas. Embora tenha nascido no Rio
de Janeiro, Renato Manfredini Jr. tornou-se
Renato Russo num tempo e num espaço precisos,
de meados da década de 70 a meados
da década de 80, em Brasília. O líder da Legião
Urbana, conjunto de rock mais popular da história
do país, não poderia ter emergido de outro
momento ou lugar.
Jornalista em Brasília, como Renato foi um
dia, Carlos Marcelo rastreia a energia criadora
do ídolo pela cidade. Com finíssimo texto e
colossal apuração, ele reconstrói a Brasília da
Turma da Colina. Que cidade linda, tediosa e
insurgente. Partida e chegada do seu inquérito
sobre Aborto Elétrico, Trovador Solitário,
Legião, heterônimos que Renato – with a great
help from his friends – criou no decorrer de
seus 36 anos de existência.
De um lado, vivia-se sob um céu fechado: a
metade final da ditadura militar implantada
pelo golpe de 1964. Do outro lado, avistava-se
um horizonte ilimitado: tão ou mais característico
que os prédios de Niemeyer na cidade
inaugurada pelo presidente Juscelino Kubitschek
em 1960, mesmo ano em que Renato
nasceu. Foi dessa dialética entre fechamento
e abertura que o artista, antena de TV da raça,
captou forças (e fraquezas) para retransmitir
ao Brasil hinos informais como “Que país é
este” e “Perfeição”.
Contudo, e esta é uma das delícias do livro,
Renato Russo não é filho único daquilo que
os militares chamavam de revolução. Carlos
Marcelo invoca sua Geração Coca-Cola, evoca
o prazer de se fazer amigos e músicas, e de se
influenciar multidões, nos anos 70/80. Assim,
por instantes, Renato Manfredini Jr. se torna
quase coadjuvante da própria história. Como
Bob Dylan nos filmes de Martin Scorsese. Renato
Russo adoraria essa comparação.
Arthur Dapieve |